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Iron Butterfly – In-A-Gadda-Da-Vida – 1968

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Nada melhor do que começar essa coluna com um disco que marcou época, e também marcou o início da minha vida de discófolo.

Lembro quando ele chegou, trazido por um amigo que tinha acabado de adquirir a bolacha. Sou suspeito de falar, pois já sabia que parte do recheio era a viajante/embasbacante “In-A-Gadda-Da-Vida”.

A capa, uma simples foto da banda ao vivo, com uma projeção psicodélica no background, não deixa transparecer a surpresa do recheio da bolacha, dando a impressão de se tratar de um registro ao vivo.

As canções da primeira metade foram acusadas, literalmente, de “encher linguiça”, antes do ato principal. Longe disso. Elas são, ao mesmo tempo, uma moldura colorida de um período histórico, e também um “crescendo”, que vai aos poucos construindo uma atmosfera que culmina no sexto e ultimo ato de “In-A-Gadda-Da-Vida” e seus 17:05.

A faixa 01, “Most Anything You Want”, além de grande abertura, trás um clima ao estilo do The Doors, o que gera até algumas comparações entre os organistas Ray Manzerek e Doug Ingle, mas tal comparação é apenas superficial, visto que Doug tinha formação sacra, pois seu pai era organista de igreja. E isso transparece na sua música. “Flowers and Beads” é uma baladinha bem “pra cima”, que além de suave, funciona como uma ponte entre a faixa 1, e “My Mirage”, onde a maior característica de Ingle fica á mostra: a dramaticidade que ele extrai de seu órgão é típica das canções sacras medievais. A seguir, “Termination” quebra um pouco o gelo, mas tem um clima que remete a corte de Luiz XIV, com seus dedilhados de órgão, em dueto com a guitarra de Erick Brann, na época com 17anos, e abre caminho até a canção que encerra o lado A, “Are You Happy”, novamente com a dramaticidade do órgão, e a guitarra afiada do prodígio Erick Brann. Mas esse disco não seria o que é, sem a cozinha incrivelmente pesada e competente de Lee Dorman (baixo) e Ron Bushy (bateria), que sairiam logo depois pra formar em seguida, com o vocalista Rod Evans (recém-saído do Deep Purple) e o guitarrista Rhino, o fabulos “Capitain Beyiond”.

“Are You Happy” é o pono alto do lado A, e sua dramaticidade e o trabalho de Doug Ingle, lembram Ray Manzarek no disco ao vivo “The Doors Live”, mas remete mais ainda a um petardo obscuro da Inglaterra de 67: o disco “Supernatural Fairytales”, da banda ART. Remetem, mais especificamente, as faixas 01, “Think I’m Going Weird”, e a faixa título, “Supernatural Fairytales”, que constroem uma atmosfera tensa em pouco mais de quatro minutos, sustentados em ambos os casos pelos graves vocais de Doug Ingle e Mike Harrison (do ART), e nas linhas de órgão e guitarra rascante, e por uma extremamente pesada e sólida base baixo/bateria. o intervalo de virar o disco para o lado B, é o respiro necessário para a avalanche que está por vir. Tive que me conter para não ouvir o lado B primeiro, respeitando o conjunto da obra.

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Conta a lenda que o batera Ron Bushy, que era Chef de uma pizzaria, voltou após mais um dia de trabalho, para encontrar um Doug Ingle muito bêbado que acabara de compor uma música nova. Este teria ditado a Bushy o título. Mas ele só conseguiu, devido ao seu “estado”, articular alguns sons, que Bushy ouviu e anotou. E o que deveria ser “In The Garden of Eden” transformou-se em “In-A-Gadda-Da-Vida”.

Enquanto a primeira metade do disco ecoa a psicodelia divertida, e um tanto superficial da California, notadamente marcados pelo estilo Jefferson Airplane, junto a um hard rock com texturas que a aproxima do psich Rrock inglês, a segunda metade é um épico, com elementos que seriam explorados alguns anos mais tarde, por inúmeras bandas à exaustão. Alguns teimam em classificar a canção e a banda como proto-metal, o que não é de todo errôneo, vide a interação entre baixo e bateria, com muito peso, embora não passe nem perto da cozinha crua e um tanto tosca da banda proto-metal por excelência, o Blue Cheer. O órgão de Ingle integrado ao baixo de Dorman no riff que marcou época, alcança texturas místicas e espaciais que remetem a “Interstelar Overdrive”, do Pink Floyd. Seu tom épico e melodramático só vê precedentes em “The End” do The Doors, enquanto que a guitarra de Erick Brann transita entre o psich rock inglês – chegando a lembrar nos solos, a guitarra incisiva e o trêmolo do inglês John Cann, do Andrômeda – e o hard dos ’70, principalmente na parte de maior tensão da canção, após o solo de órgão, e durante o de contrabaixo, com ruídos fantasmagóricos que lembram a técnica do “arco de violino” empregada por Jimmy Page no Led Zeppelin alguns anos mais tarde. A letra um tanto enigmática, só vem reforçar a aura misteriosa e obscura da música. O solo de bateria é um caso à parte, pois mesmo sendo de longa duração, não deixa que o ouvinte perca instintivamente a marcação de tempo de toda a música, quase como um metrônomo. 

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Recentemente foi relançado em Cd de luxo, com três versões de “In-A-Gadda-Da-Vida”: a original de estúdio, uma versão ao vivo de mais de 18 minutos, e a versão editada de FM que saiu num compacto de 7”, com 5 minutos.

Mas se você puder escolher, prefira a versão em vinil, para ouvir na penumbra, com um bom fone de ouvidos. Você pode se surpreender ao ouvir o som da palheta de Brann, ou a respiração de Ingle enquanto ele canta. Vai por mim, não tem preço.

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Faixas

  1. “Most Anything You Want” (Ingle) – 03’44”
  2. “Flowers And Beads” (Ingle) – 03’09”
  3. “My Mirage” (Ingle) – 04’55”
  4. “Termination” (Brann/Dorman) – 02’53”
  5. “Are You Happy?” (Ingle) – 04’29”
  6. “In-A-Gadda-Da-Vida” (Ingle) – 17’05”

Formação

  • Doug Ingle: órgão, teclado, piano, vocal
  • Erik Brann: guitarra, violino, vocal
  • Lee Dorman: baixo
  • Ron Bushy: bateria, percussão

Lançamento

25 de julho de 1968

Gênero(s)

Rock

Duração

36:15

Formato(s)

LP

Gravadora(s)

Atco Records

Produção

Don Casale

Abaixo, você pode apreciar uma das versões ao vivo estendidas da banda. Simplesmente o máximo!!!

Um abraço, e até o próximo Bolacha Inesquecível.